sexta-feira, 15 de março de 2013

Poema de Carlos Drumond de Andrade


Jardim
Negro jardim onde violas soam
e o mal da vida em ecos se dispersa:
à toa uma canção envolve os ramos,
como a estátua indecisa se reflete

no lago há longos anos habitado
por peixes, não, matéria putrescível,
mas por pálidas contas de colares
que alguém vai desatando, olhos vazados

e mãos oferecidas e mecânicas,
de um vegetal segredo enfeitiçadas,
enquanto outras visões se delineiam

e logo se enovelam: mascara,
que sei de sua essência (ou não a tem),
jardim apenas, pétalas, presságio.

ANDRADE, Carlos Drumond de. Jose: fazendeiro do ar: novos poemas. Rio de Janeiro: Record, 1993. P. 21


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